Conic - Uma igreja que acolhe os homoafetivos

A Comunidade Athos é uma igreja recente, com visão inovadora no País

Conic - Seis estúdios fazem a festa dos tatuadores

A tatuagem encontrou no Conic sua casa no Plano Piloto

Conic - O brilho das Drag Queens

Assim que Savanna Berlusconny sobe ao palco, o público da boate se aglomera para assisti-la

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Moradores da primeira cidade operária do DF sofrem sem transporte




 Moradores da Fercal reclamam da falta de investimentos no transporte público da região. As queixas são muitas: ônibus velhos, sujos e com problemas nos freios. A cidade tem uma população estimada em mais de 30 mil habitantes, porém não tem se quer um terminal rodoviário, apesar de ser uma das regiões  que mais geram impostos para o Distrito Federal. Acompanhe a reportagem completa.

Por Flávio Lacerda


Os Invisíveis

Legenda
Foto: Íris Cruz 

Brasília é conhecida por algumas características singulares. Centro do poder político, capital federal, plano piloto. Cidade que vive o dia a dia em blocos e quadras, setores e vias, em uma monótona rotina. 21 de abril marca o aniversário da capital que, por mais visada que pareça, ainda tem muitos rostos invisíveis. Em meio a milhões de habitantes e com a maior renda per capita do país, parte da população vive um drama na cidade: O abandono. 

Atualmente, segundo a Secretaria de Desenvolvimento Humano e Social, duas mil e quinhentas pessoas vivem nas ruas por diferentes significados e motivos. Brigas familiares, drogas, problemas com bebidas e sonhos interrompidos são alguns dos principais motivos para alguém transformar a rua em moradia.



A psicóloga Fabíola Ferreira comentou que, apesar desses exemplos, não existem fatores específicos para que alguém vá morar na rua, mas sim, de um fenômeno multifatorial. “Alguns estudos que fiz sobre essa realidade, sobretudo com jovens nas ruas, são os que vêm de famílias desestruturadas, expostos muitas vezes pela violência parental, falta de perspectiva de vida e por se acharem incapazes de conquistar um futuro diferente do que eles já vivem”, explicou a especialista. 

A definição de Fabíola se encaixa em muitas das histórias que conseguimos escutar com alguns moradores de rua. É o caso de Magali Silva, de 56 anos. Ela veio para Brasília em busca de melhorar a qualidade de vida e trabalhar na capital federal. Sobre a história de Magali, a resposta foi simples. “Se eu te contar, não vai adiantar nada, o que eu faço é pedir uma ajuda, se eu precisar de alguma coisa eu te falo”.

Magali foi morar na rua depois de tentar resgatar o filho, que atualmente está preso por tráfico de drogas. Ela contou um pouco dessa relação com o rapaz e mostrou que não foi nada fácil. “Eu já cansei de tentar ajudar ele, minha família mesmo está na rua. A gente fica junto, dorme, se ajuda. Prefiro ficar com eles”, completou. Para arranjar dinheiro, a moradora de rua guarda carros no Setor Bancário Sul e até vende drogas para conseguir algum dinheiro para sobreviver. “Nunca pus um cigarro na boca, só uma pinga de vez em quando, mas eu vivo disso. Preciso disso para poder sobreviver.”.


Uma das colegas de Magali também nos contou um pouco sobre ela. Rafaela Souza, de 21 anos, veio do Ceará para Brasília em busca de uma vida melhor. Está na cidade há um mês e já conseguiu realizar um sonho, fazer cirurgia para se tornar travesti. “Consegui virar travesti, graças a Deus e estou adorando Brasília, não tem lugar melhor para viver. Não conheço muita coisa ainda”.


Sobre a rua, Rafaela contou que, apesar da situação, consegue enxergar felicidade e união, coisas que, segundo ela, nunca encontrou ou sentiu antes na cidade natal. Atualmente ela divide espaço com conhecidos na rua, e já fez muitas coisas para tentar sobreviver. “Eu já fiz e tudo um pouco, já me prostitui, já dancei em boates, mas vi que aquilo não era o melhor pra mim e saí. As pessoas daqui acham que a gente é lixo, por isso prefiro morar na rua, que me tratam bem independente e tudo”, concluiu.


Moradores de rua tentam tirar o sustento guardando carros, como Magali. Alguns deles, em vez de comprar uma comida, preferem gastar o dinheiro com drogas e bebidas alcoólicas. Fabíola Ferreira explicou que, do ponto de vista da psicologia, dependentes químicos preferem consumir esses produtos citados a um prato de comida, para amenizar a dor do cotidiano. “Sem dúvida, esse processo se dá pela necessidade da fuga de tudo o que é avesso ao seu redor, pois uma vez “anestesiado” com os efeitos das drogas e do álcool, ela se desconecta do mundo, mesmo num pequeno espaço de tempo”. 


Um personagem muito interessante que a reportagem conheceu foi Leoberto Pereira. Ele tinha uma vida comum. Tinha família, filhos, fez faculdade e trabalhou como eletricista. Entretanto, a droga mudou o caminho e definiu o futuro de Leoberto. O vício em cocaína acabou provocando a perda de tudo o que tinha. Leoberto conseguiu até a morar nos Estados Unidos por um tempo; porém, ao voltar para rever a família em Brasília, foi preso por tráfico de drogas. Atualmente ele vive na rua, não tem mais contato com a esposa e filhos, mas ainda conversa com os pais. Apesar disso, a relação com a mãe quando visita a casa é bastante conturbada. “Eu vou em casa de vez em quando, pra tomar um banho, mas acontece que eu sou muito julgado. Por isso que eu prefiro a rua, nela eu tenho o que preciso, não sou julgado por ninguém”.


Leoberto ainda não conseguiu largar o vício da cocaína. No dia da entrevista, ele nos contou que havia usado droga na noite anterior, mas enxergava que aquilo estava o destruindo e foi em busca de assistência para dependentes químicos no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS). “Eu tento me livrar dela, mas até hoje não consegui arranjar algum auxílio para diminuir o consumo. Eu me sinto destituído no dia seguinte, que bate umas “ressaca”, não gosto nem de ver porque sei que vai me fazer mal”, concluiu .


Muitos vivem o dilema das drogas, mas encontramos um exemplo de superação com Fabiana Pereira da Silva, de 43 anos. Ela tem familiares ao redor do Plano Piloto, mas ainda prefere morar na rua. Fabiana vende uma revista cultural para tirar o sustento do dia a dia. Ela mora com um companheiro que dá suporte afetivo para ela. Os filhos e netos do casal moram hoje na casa dos parentes. “Hoje eu sou muito contente na rua, apesar de sentir muita saudade dos meus filhos e netos, é melhor pra eles”.


Com relação à droga, Fabiana teve uma relação próxima com o crack. Depois dos filhos e do trabalho, começou a ter maior consciência sobre a degradação que o uso causou e a necessidade de maior responsabilidade. Fabiana infelizmente não interrompeu o uso totalmente, mas agora ela não quer voltar para a situação de antigamente. “Hoje eu não me sinto bem usando a droga, não gosto nem que falem esse nome perto de mim. Estou me esforçando bastante para que um dia eu consiga voltar a ficar perto dos meus filhos de novo”.


Apesar dessas histórias tristes, a maioria dos entrevistados seguem as rotinas com um sorriso no rosto. Independentemente dos problemas que enfrentam, eles levam com alegria. É o que nos contou o morador de rua e músico, Davi Silva, de 36 anos. Na rua desde os sete anos de idade, teve uma experiência triste antes de sair de casa: a morte da mãe. Depois disso, Davi foi parar na rua, mas com o passar do tempo a vida melhorou bastante. Na música, encontrou uma espécie de salvação para o sofrimento.


Na igreja aprendeu a tocar violão e a cantar e, com isso, começou a trabalhar com a música. “Hoje em dia eu agradeço muito as experiências que eu tive para poder tirar todo o sofrimento. Estou estudando música numa faculdade e estou com meus projetos”, disse o músico.


Um morador que frequenta o Centro POP desde a abertura é o senhor José Pereira da Silva, de 56 anos. Ele busca auxílio de alimentação e ainda realiza muitas atividades com o pessoal que frequenta a unidade na Asa Sul. José tem familiares no entorno, porém, também é mais um que vive na rua por opção. “É complicado viver na rua, mas a gente acaba se acostumando e com as pessoas certas, eu até prefiro dormir em qualquer canto da cidade”, disse José.


É comum que muitos casais se formem nas ruas. É o caso de Keli Souza e  Ricardo Souza, de 31 e 23 anos, respetivamente. Cada um buscou no outro auxílio para sair da situação de dependência química. Keli conta que o marido foi e é fundamental. “Se não fosse por ele, eu acho que eu estaria sofrendo muito, ou até morte. Me prostituí desde nova, tudo para usar o dinheiro para comprar crack, com esse minha opção, eu engravidei e tive quatro filhos, que moram com alguns familiares meus”, conta Keli.


Já Ricardo passou por uma situação parecida com a da mulher. Teve a experiência com as drogas e a vulnerabilidade da rua, assim que conheceu a esposa, se sentiu na obrigação de ampará-la. “Ela é tudo pra mim. A gente se conheceu na rua, a gente se uniu e se fortaleceu. Não uso mais droga e agora eu estou estudando, nunca pensei que fosse gostar tanto disso. Vamos todos os dias buscar mais conhecimento”, completou Ricardo.


Atualmente os dois trabalham vendendo revistas culturais, a mesma de Fabiana. Keli conta que tem vergonha de pedir dinheiro, ela prefere trabalhar. “Hoje em dia eu não preciso mais pedir dinheiro na rua, com o meu trabalho eu consigo me virar na vida. Estudando e trabalhando, tenho ficado cada vez mais longe das drogas” completa e vendedora.


Pessoas são atraídas por Brasília. Tanto pelo fato de ser a capital do país, quanto por ser um local muito bom para melhorar a qualidade de vida. Mais uma personagem da reportagem conta que veio para o Distrito Federal por esse motivo. Edelzuita de Jesus, de 57 anos, veio pra o Planalto Central em busca de uma vida melhor, mas, uma doença degenerativa complicou um pouco a vida dela.


Sem família na cidade, apenas amigos que faz dentro do acolhimento do Centro POP dão auxílio para ela. “Eu tenho muito a agradecer a todos que vivem me ajudando. Eu tenho família, mas não moro mais com ele já faz muito tempo. Esses dias vi minha filha pela Internet, junto da minha netinha, e tenho muita saudade delas”, conta Edelzuita. Ainda na esperança de um dia voltar para os braços da família, ela segue a vida do jeito que pode. E um dia, quem sabe, chegar a rever a filha. 

Aqui no Distrito Federal há centros de acolhimento para moradores de rua, conhecidos como Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro POP).  Neles os moradores conseguem tomar banho, lanchar, descansar com mais tranquilidade. A reportagem foi ao Centro da Asa Sul, e lá conversamos com o diretor e da Unidade Luan Carvalho, que nos contou um pouco mais.  “Aqui nós tentamos acolhê-los da melhor maneira possível. Fornecemos um lanche, deixamos banheiros à disposição para tomarem banho. Atividades também são feitas por aqui, para que haja uma descontração com os moradores de rua que passam por aqui”, conclui Luan.

Centralizado

Em meio às árvores da quadra 202 norte é possível enxergar um colchão com cobertor vermelho xadrez bem engomado. É a casa de Costinha, única referência que o homem diz ter sobre o nome. Durante o dia a dia corrido da quadra comercial, onde vários transeuntes cruzam as ruas a todo momento, o paraibano de 42 anos se esconde debaixo do pedaço de tecido encontrado em um lixo dos prédios residenciais. Ele conta que é melhor se esconder quando o fluxo de pessoas é grande.
Conduzido por duas vezes até abrigos da cidade, Costinha afirma que a decisão de deixar os locais aos quais foi destinado surgiu por causa do vício. O problema para ele é o álcool. E este é o mesmo motivo que o fez sair de casa. Ele conta que, aos 17 anos, deixou a cidade onde morava no agreste da Paraíba. No município de Cuité, as condições de vida eram difíceis e a mãe, já falecida, o mandou procurar trabalho na cidade grande.
"Me perdi", diz o morador de rua ao acrescentar que "está acostumado" com a vida que leva. "Quem está na rua entende a rua".
Questionado sobre a violência à qual está exposto, Costinha parou para pensar durante alguns segundos. A resposta parecia engasgada. Até que relevou: entre os maiores medos está o do "olhar torto" de quem passa por ali.
Veterana

Maria Antônia Fernandes da Silva tem 63 anos e está na rua há pelo menos 30. Com problemas dentários e com a saúde debilitada, dona Maria conta que uma das maiores dificuldades está na hora de comer. Além das dores, falta força na arcada dentária para a mastigação.
Sem a maior parte dos dentes, a pronúncia das palavras também se torna difícil, lenta. Mesmo assim, a senhora magra com cabelos finos e grisalhos não deixa o sorriso de lado. E adora piadas. Enquanto toma conta de carros nas comerciais da Asa Norte  para tentar ganhar dinheiro - mesmo lugar que costuma escolher para dormir - dona Maria conversa com todos que passam por ela. Puxa papo, comenta as roupas das mulheres e até elogia os homens. "Que pão! Você viu? Na minha época a gente chamava os homens bonitos de pão, minha filha", contou.
De acordo com ela, a maior saudade é das filhas. Maria Antônia contou que saiu da periferia de São Luís, no Maranhão, quando terminou o casamento com o pai das duas meninas. A ideia de vir até a capital federal estava ligada às melhores condições de emprego. Mas, ao chegar, percebeu uma realidade diferente da que escutava quando em terras maranhenses.
"Não encontrei trabalho e também não consegui mais voltar para casa. Não tenho contato com minha família desde os 40 anos", disse. Mesmo com todas as dificuldades, ao pedir para dona Maria descrever a vida em uma palavra, a escolha foi "esperança". "Temos que ter [esperança] para acreditar que vamos acordar amanhã, né?", indagou.
Essas pessoas têm diversos motivos para seguir em frente e conseguir uma vida mais tranquila, sem as adversidades da rua. Neste mês em que comemoramos mais um aniversário da cidade, o cenário brasiliense é marcado pela história de cidadãos como Leoberto, Edelzuita, Keli, Ricardo, Davi, Costinha, Maria Antonia, Magali, Rafaela e Fabiana, dentre outros.

Confira reportagem para o Jornal Esquina:




Por Felipe Alcides e Victor Fernandes 

Colaboração Iris Cruz e Patrícia Cagni

Conic - A "Faixa de Gaza" não é aqui



Harmonia cultural e religiosa no Conic / Tina Dornelas

De um lado, fiéis de igrejas tradicionais conservadoras, de outro frequentadores de espaços alternativos inclusivos. Com diversos elementos que poderiam tornar o Conic um campo de batalha, o local se confirma como um ambiente de tolerância cultural e religiosa.
Inaugurado na década de 60, o centro de comércio e entretenimento está localizado no Setor de Diversões Sul, ao lado da rodoviária do plano piloto. Sua pluralidade atrai um público eclético. Toda diversidade cultural, regional, social, racial, política e religiosa cabe lá dentro. O espaço abriga bares, lanchonetes, restaurantes, sindicatos, comitês de partidos políticos, boates, galeria e faculdade de teatro, sauna, salões de beleza, estúdios de tatuagens, lojas variadas e igrejas de diversas religiões.
Fachada do Conic / Foto: Tina Dornelas
A Igreja Universal do Reino de Deus foi a primeira a chegar. Flávia Portela, prefeita do Conic conta que no início ocorreram transtornos com frequentadores de alguns bares, mas aos poucos a política da boa vizinhança prevaleceu.
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Universal, a primeira das seis igrejas do Conic / Foto: Tina Dornelas

Atraídas pela localização central, baixo custo dos aluguéis e estrutura apropriada para cultos, outras igrejas passaram a ocupar os espaços das salas de cinema do Conic.


                                            Igreja ocupa espaço do antigo cine pornô / Tina Dornelas

Os fiéis da Igreja evangélica Ministério Marca da Promessa convivem pacificamente lado a lado, com os frequentadores de uma das casas LGBTS mais antigas de Brasília, o Espaço Galleria
O último culto acontece às 20 horas. O movimento da boate aumenta de madrugada. A alternância de horários facilita o desencontro dos frequentadores diferenciados e a possibilidade de confronto entre eles.
Prefeita do complexo desde 2004, Flávia garante que a convivência é tranquila.  “O Conic é um setor muito permeável. Nós temos um regimento comum, assinado, que todos têm conhecimento, mas não é uma regra, não é uma lei. Eu nunca vi briga, não tem essa história lá”, ressalta.
A Igreja Pentescostal Deus é Amor fica no sub-solo do edifício Baracat, que faz parte do complexo comercial do Conic e o último culto acontece às 19 horas.


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Cultos diários em horários variados / Foto: Tina Dornelas
Diversidade
No subsolo do edifício Eldorado, o mais central do Conic, está localizada a igreja inclusiva Comunidade Athos há nove anos. A entrada é pela portaria B, que dá acesso às salas comerciais do prédio. Não existe nenhuma placa de identificação LGBT, nem na fachada do prédio e nem na porta da sala no final do corredor.
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Portaria de entrada da Comunidade Athos / Divulgação

Os cultos acontecem nas noites de quarta e sábado de maneira muito discreta, conduzidos por uma pastora numa sala simples, sem altar e sem imagens religiosas. A única identificação da comunidade LGBTS é um banner na parede do fundo com a logomarca e o site da entidade.


Aceitação de fiéis LGBTS
Um dos fiéis, que preferiu não se identificar comenta a necessidade de uma igreja inclusiva. “As igrejas tradicionais não nos aceitam. O nosso desejo é estarmos juntos. Deus não nos criou para esta separação”, lamenta. Segundo ele, ainda existe muito preconceito na sociedade. “A ideia da igreja inclusiva não é uma festa para os homossexuais. Muitos não conseguem entender que um gay possa ter uma religião. Alguns acham que vão encontrar uma boate, mas quando chegam aqui veem que é uma igreja como outra qualquer, que acredita na Trindade Santa – Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito e segue a bíblia sagrada”, esclarece.
Para um dos frequentadores mais antigos, a sinalização de mais tolerância por parte do líder da igreja católica é muito significativa para toda a comunidade. “O Papa Francisco é uma voz importante dentro do cristianismo no mundo. Quando ele abre os braços para os homoafetivos, as outras igrejas também podem começar a aceitar e aí nós poderemos conquistar mais respeito”, ressalta.
Umbanda e candonblé foram pioneiros no Conic / Foto: Guilherme Lopes

Localizada ao lado de um bar e de uma igreja, a loja de artigos de umbanda e candomblé, que está no Conic há 26 anos, já passou por alguns atritos com os vizinhos religiosos. A proprietária do estabelecimento, Helena Mesquita, conta que houve uma época em que a entrada da loja amanhecia com sal ou arruda, e que um pastor chegou a dizer que estava lutando para tirar os proprietários do local, mas atualmente a convivência é totalmente pacífica entre eles.
A chegada de um novo pastor construiu uma relação cordial com os donos da loja. “Ele chegava, dava bom dia, ficava conversando comigo e com meu marido. Ele dizia: ‘eu não tenho preconceito com religião, porque cada um acredita naquilo que gosta e no que quer’. Ele me deu um livro sobre todas as religiões e tenho ele até hoje em casa.”, relembra Helena.  Desde então a convivência se mantém harmoniosa.
Quanto aos outros comerciantes, transeuntes e até mesmo as demais igrejas no Conic, a proprietária diz que não há nenhum conflito e que a relação é tranquila. “Às vezes, algumas pessoas passam e viram a cara, outros, que vêm de fora, se benzem ou coisa do tipo, mas nunca mais tive problema”, conta ela.
Desde a inauguração da capital federal, o Conic segue por décadas recebendo pessoas, de diferentes tribos, crenças e orientações sexuais. Isso comprova que é possível conquistar uma convivência harmoniosa e pacífica, no mesmo espaço.

Por Tina Dornelas e Guilherme Lopes - Esquina Online

Conic - Sob quatro rodas

O Conic é conhecido pela sua diversidade e peculiaridade. Nele, funcionam os mais diferentes tipos de comércios e sindicatos. Dentre eles pode-se encontrar boates, cinema, bares, igrejas e muitas lojas. Algumas dessas lojas têm maior destaque, e as as mais tradicionais são as de skatewear. Construídas desde o início do Conic, as lojas de Skatewear marcam o espaço cultural do prédio. Mais do que lojas, elas se reúnem e promovem eventos todos primeiro sábado do mês. Segundo os lojistas e donos dos estabelecimentos, os eventos são para interagir com seus clientes e para tentar trazer o público do Conic de volta, já que a maioria está migrando para outras áreas. Ao andar pelo estabelecimento durante o dia é perceptível a falta de higiene e policiamento.


SKATEWEAR

Cleiton Fragoso feliz com os eventos /Foto:  Fábio Setti
Referência em Skatewear, o Conic já se tornou ponto de encontro para skatistas de todas as idades e partes do Distrito Federal. A escolha é óbvia: pela quantidade de lojas e produtos vendidos no Conic, e o espaço aberto central, o prédio se torna o local ideal para encontros da modalidade esportiva. A concentração de skatistas no local ainda é a maior de Brasília. Todo primeiro sábado do mês, acontece um evento que ajuda na divulgação das lojas. Por esses eventos já passaram trucks e rodinhas famosas, como as de Rony Gomes e Otavio Neto. Vendedor há 10 anos e morador do Valparaíso, Cleiton Fragoso chegou por acaso ao Conic por um convite do primo. 

Cleiton pegou gosto pelo ramo da skatewear e se identificou com o público.“Nossa loja patrocina os eventos, banca tudo e como retorno, recebemos o carinho e a volta do público que nos prestigia. A galera é fiel, mas temos que ter maior apoio do governo”, Para o vendedor experiente não são apenas os problemas internos do Conic que fazem o público se afastar. Há muitas obras aos arredores da rodoviária que não tem previsão para acabar. 

O transporte é ruim das cidades satélites ao centro e a falta de informação sobre o
local também causa efeito negativo na vinda do público. “Tem que ser feito algo a respeito da imagem que as pessoas têm daqui, é nosso papel limpar o nome, mas também tem que haver atitude da administradora”, acrescenta Cleiton.

Confira o vídeo dos skatistas em Brasília

Vantagens

Matheus Pimenta se diverte de dia / Foto: Fábio Setti
Todo shopping tem seus prós e contras. Lugar tranqüilo de manhã, inofensivo durante o dia, tem grandes atrações e visual descolado. Grafites espalhados, artistas de rua e artesanatos variados recheiam o Conic. Durante o dia, o setor é bastante agradável, tem um visual de encher os olhos e possui um espaço de qualidade para andar de skate, segundo Matheus Pimenta, de 21 anos, que ressalta que o local tem suas qualidades. “As pessoas falam muito mal daqui, mas na realidade o que acontece de pior é nos horários mais vazios. Durante o dia é bem tranquilo, como qualquer outro local”. Matheus também conta que visita o Conic tranquilamente e acha as opções de loja e preço bem acessíveis. O rapaz lamentou a migração do público e ressaltou que é um lugar único e que não deveria ser abandonado.



Problemas


Guilherme Silva, vendedor de uma das lojas de skate, tem 19 anos e é vendedor no Conic há um ano e meio. Ele afirma sair todo dia após o expediente com medo dos moradores de rua que ficam aos arredores. “Por volta das 14h eles chegam, ficam aí xingando as pessoas e ameaçando elas, infelizmente o Conic está perigoso”. Antes de trabalhar no lugar, Guilherme era frequentador assíduo e frisou a qualidade das lojas e do estilo alternativo do setor. Ele conta que ia muito para lá encontrar os amigos e sair para andar de skate. “Eu sempre vinha para comprar meus equipamentos que só tinham aqui e depois descia para o setor comercial, museu para andar de skate”, diz o jovem. Desde que começou a trabalhar na loja e ter maior contato com o local e o público, o jovem vendedor diz que o número de skatistas diminuiu. “Aqui está queimado demais. Vejo na internet a população reclamando. Virou ponto de droga, a polícia faz descaso conosco e, consequentemente, nossos clientes desaparecem”, reclama Guilherme. 



Guilherme Silva chama os clientes de volta /Foto:  Fábio Setti


Por Fábio Setti

Conic - Uma igreja que acolhe os homoafetivos

Comunidade Athos Localizada no Conic / Foto: Lucas Veloso 

O Conic possui cenários inimagináveis. Conhecido por sua diversidade cultural, o espaço criado há mais de 47 anos abriga bares, sindicatos, boates, livrarias, restaurantes, lojas de artigos de umbanda e templos religiosos dos mais diversos tipos. Esse cenário compõe o espaço que fica no Setor de Diversões Sul.
A Comunidade Athos é uma igreja recente, com visão inovadora no País, onde atribui ao homem o direito de sua orientação sexual sem discriminação por parte dos membros da igreja ou da Bíblia sagrada. Dar-se o nome de Teologia inclusiva. Esta comunidade será tida como “filha” da Acalanto , fundada pelo pastor Victor Orellana, e funciona há 9 anos, tendo o início de suas atividades em Dezembro de 2005.

Os congregados se baseiam em uma passagem bíblica no livro de Atos capitulo 10 versículo 34 que diz: “E, abrindo Pedro a boca, disse: Reconheço por verdade que Deus não faz acepção de pessoas”.É com base nesse pensamento que a igreja foi fundada, ganhando visibilidade e respeito por diversas pessoas. Casais homossexuais foram membros de outros ministérios, mas, insatisfeitos com a rejeição de suas orientações sexuais, optaram por seguir a doutrina dessa comunidade.

Hudson Oliveira, membro atuante da igreja, ouviu falar da Comunidade Athos em 2011 através de um colega de faculdade, que hoje lidera outra igreja inclusiva de Brasília.  Como sua antiga comunidade religiosa não aceitava participantes homoafetivos, Hudson decidiu desde 2012 congregar na Athos. Em 2013 foi separado cooperador e também atua como ministro de louvor. “Sei que Deus me ama como sou, isso me deixa à vontade para realizar o que creio ser a vontade de Deus através de mim” comenta.

Antes, Hudson passou por três igrejas diferentes e, segundo ele, nessas denominações a homoafetividade era demonizada.  Por esse motivo ele não comentou com nenhum “irmão” sobre ser homossexual. “Enquanto frequentei as igrejas tradicionais, exerci meu ministério e fui reconhecido por isso. Mas isso só aconteceu porque eu não me assumira homossexual”, desabafa.

A Comunidade Athos não apenas aceita, mas, realiza casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Assim como também realiza o batismo nas águas e acreditam na manifestação de dons espirituais. Uma igreja denominada pentecostal, cheia do chamado “avivamento”.

Léo Capellatto, 24 anos, Chegou em Brasília há poucos meses e, na busca de uma nova congregação, conheceu a Comunidade Athos através das redes sociais. Ele confessa ter tido certa resistência no inicio por ter frequentado igrejas tradicionais por muitos anos. Mas, com tempo, sentiu que poderia servir a Deus sendo quem realmente era. “Deus falou comigo e me mostrou o quanto é bom e perfeito estar na Sua presença sendo realmente quem sou. A diferença é que foi me dado à oportunidade através da Comunidade Athos de servi-lo em verdade, sem ter que me passar por outra pessoa, sem medo da indiferença”. Hoje, com seis meses de participação na Igreja, Léo tem pretensões como membro da comunidade de se dedicar à equipe de louvor e teatro, com a convicção de que é aceito por Deus e que pode ter uma vida plena. “Agora é diferente, sei que através de estudos bíblicos, inclusive por um de nossos pastores que estudou mais de 6 anos, que Deus me ama, sendo quem sou. Hoje sou mais feliz, sou o que deveria ser sempre, pois Jesus morreu para que eu tivesse vida com abundância”. Explica

Recepção calorosa

“Uma igreja que acolhe os homoafetivos que desejam a presença de Deus em suas vidas. Deus ama a todos!”. Essa é a frase do banner que fica no altar da igreja; logo ao lado a referencia bíblica de 1 coríntios 13 “ ... O amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta...” . A recepção calorosa faz jus às palavras de conforto e aceitação que compõe o ambiente de adoração.
Às segundas-feiras a igreja realiza as reuniões de oração. Os cultos das Quartas e domingos apresentam um número expressivo de fiéis lotando todas as cadeiras do ambiente. Casais, em sua maioria gays, participam juntos do Louvor e adoração à Deus, alem de retiros espirituais durante o ano. A igreja tem planos de acrescentar em sua programação, a partir de janeiro de 2015, as chamadas "células", que são reuniões realizadas nas casas dos fieis. A intenção é começar no Gama, Santa Maria, Samambaia e Taguatinga. A participação dos membros da comunidade ganha a cada dia maior visibilidade. Em setembro deste ano foi realizado, na parada gay de Brasília, um culto evangélico organizado pela comunidade Athos .

Pastora, Márcia Dias, mãe de três filhos, hoje casada com uma mulher,  considera-se realizada e compreendida por  Deus  “ Ele me deu a consciência que nunca fui uma surpresa para ele e que se ele quisesse já teria me mudado. Sou feliz pelos filhos que tenho e por ser quem sou.” afirma
E com esse espírito de aceitação e entendimento que a pastora fundou a Comunidade Athos e busca superar todos os obstáculos que venham tentar diminuir o trabalho da igreja. “Como ser humanos temos que lidar com os receios que podem surgir, mas uma coisa é fato: se cremos em Deus, temos que lançar fora todo medo; é assim que lido com as situações adversas”. Diz.  
Pastora Márcia Dias e sua companheira Marta / Foto: Lucas Veloso
                 
       
“O evangelho de Cristo é naturalmente inclusivo, vários são os relatos em que Cristo inclui as mulheres, os estrangeiros, os pobres, as crianças. A fé inclusiva está baseada na análise dos textos bíblicos sobre a ótica contextualizada da Bíblia; empregando os métodos críticos teológicos em que rejeitamos a pregação onde afirma que os homoafetivos são rejeitados por Deus por ser quem são. Não é quem somos que Deus julga, mas como vivemos e isso independentemente de ser hetero ou homossexual”. (Pastora Márcia)


Por Sheylla Martins - Esquina Online

Conic - Consumo de crack diminui no local

Consumo diminui no Conic, mas aumentou em outras regiões/ Foto: Creative Commons
O Conic é conhecido por abrigar usuários de drogas, mas esta má fama diminuiu nos últimos anos.  Segundo o Procurador de Justiça do Ministério Público do Distrito Federal e Território (MPDFT), José Theorodo Correia de Carvalho, o consumo de entorpecentes na região do CONIC reduziu, mas ele alerta para um novo ponto de consumo e tráfico. “Ocorreu uma migração dos usuários para o buraco do rato localizado no Setor Comercial Sul, ou seja, as pessoas não deixaram de consumir, apenas mudaram o local de uso.” Contou o procurar que se baseou nos processos que recebe do Ministério Público. 
Dados divulgados pela Policia Civil do Distrito Federal mostram a propagação do consumo do crack no Distrito Federal. De janeiro a setembro deste ano foram apreendidos 355,853 kg da droga, no mesmo período em 2013 foram recolhidos 148,936 kg . A análise dos números aponta um crescimento de 206,918 de um ano para o outro, o que significa um aumento de 138,9%.

Com base nos números de apreensões divulgados pela a polícia referente aos três primeiros trimestres de 2013 e 2014, além do crack, a maconha e o LSD também ganharam espaço no Distrito Federal. A maconha apresentou um aumento bem parecido com o do crack , de 136,6%, enquanto o LSD teve a propagação de 101%,9.

A cocaína como merla tiveram uma redução considerável na sua circulação no DF, a queda de 81,2% e 50,1% respectivamente. O número de frascos de lança perfume apreendidos diminuiu em 5.232 unidades em relação ao ano passado, o que significa uma diminuição de 99,2%, chegando bem próximo do grande objetivo de exclusão total deste tipo de droga.  O combate ao consumo do Ecstasy tem surtido efeito, apresentou uma redução de 97,7%, o que corresponde na redução de 2.121 comprimidos apreendidos.

Um limitação é a Secretaria de Segurança Publica do Distrito Federal não ter categorização das apreensões, por microrregião. Permitiria uma análise mais rica, para serem tomadas medidas que atendesse a especificidade de cada uma delas,  diminuindo o tempo demandado para ações e produzindo um resultado mais eficaz.

O Distrito Federal possui 16 Centro de Atenção Psicossocial, sendo 9 destes voltado para o atendimento dos dependentes do álcool e das drogas, sendo o serviço uma referência nacional. Dos 9 CAPSAD (Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas), o do Plano Piloto, o da Asa Norte e o de Taguatinga realizam atendimento 24 horas.

Segundo informações concedidas pela a Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal são realizado em média por mês, 11 mil atendimentos em todos os Caps . Estes contam com uma equipe formada por enfermeiros, clínico-geral, psiquiatra, psicólogo, assistente social e terapeuta ocupacional.

Ao serem questionados sobre o número de pacientes nos CAPS oriundos da região do CONIC, a Secretaria de Saúde informou que eles possuem dados específicos referentes aos usuários daquela localidade, pois eles não tem como saber de onde os usuários do serviço vêm.

Com base nos números fornecidos pela gerente do CapsAD do Plano Piloto Maria Garrido, de abril até o último dia 22 de outubro foram realizados 1500 atendimentos, destes  apenas 1,8% eram usuários de apenas crack, a grande maioria são usuário de álcool associado ou puro. Sendo que 35% dos usuários eram do Plano Piloto (Asa Sul / Asa Norte), fez questão de ressaltar que não tem como saber a localizada exata.

Maria Garrido informou que no período de julho a meados de setembro, a Secretaria de Saúde realizou uma ação integrada no Setor Comercial Sul, na qual foram atendidos 800 usuários de álcool e drogas. Eles eram morados de ruas, passantes e usuários que buscaram atendimento por conta própria.

A gerente ressaltou “as pessoas tem dificuldade de assumir a doença, isso acaba interferindo na adesão do tratamento, muitos usuários do crack aderem ao tratamento perfeitamente, mesmo estando em situação de rua”. A prefeita do Conic, Flávia Portela, contou que a  sete anos, uma ONG patrocinada por uma grande estatal  levou um projeto de ressocialização de dependentes químicos para dentro do Conic, “a gente sabia que isso não ia dar certo” destacou. Os meninos iam para lá, tomavam banho, tomavam sopa e depois saiam tocando o terror pelo Conic. Foi um período muito difícil. 

Por Luiz Flávio - Esquina Online




Conic - O sebo de Ivan Presença

Localizado no centro do poder, o quiosque cultural, que é um sebo, tornou-se uma referência para os apaixonados por livros raros, boa música e reunião de amigos. Ivan Presença, 65 anos, carioca, livreiro de coração, está no CONIC desde 1980.

 A paixão por livros começou na adolescência, ainda no Rio de Janeiro.” Sempre gostei de visitar redações de jornais, revistas, rádios, televisão”. Ele declara que trabalha por uma “necessidade orgânica” e que não enxerga outra possibilidade de sobrevivência.

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A abertura da livraria se deu em sociedade com seus dois irmãos. “E o nome da livraria surgiu por conta dessas presenças constantes em redações”, relata. Ele promoveu inúmeros lançamentos de livros, além de possuir um espaço de cultura e integração com os clientes. Após uma grave crise financeira, teve que fechar a loja e abrir posteriormente o quiosque cultural.


Convivência

Segundo ele, a convivência com os vizinhos é pacifica. As brigas são entre o inquilino e o dono do estabelecimento para receber o aluguel, uma vez que o movimento é baixo e os alugueis caríssimos, ironicamente relata.

Ele possui clientes variados e não há uma gama grande de clientes. Diz também que esse não é um comercio, mas uma “caixinha de surpresas”. As pessoas procuram por uma necessidade quando se lembram do quiosque cultural. Em relação ao CONIC, afirma não ser um centro comercial. As pessoas só procuram por necessidade, seja em busca de um dentista, oftalmologista, rezador, ou quebrar um mal olhado na igreja.


Por Ricardo Moura


CONIC - A diversão nas noites


Boate e bares atraem público interessado em se divertir

Rodas de conversa em um dos bares do Conic / Foto: Lucas Veloso
Os corredores sombrios das noites no CONIC escondem uma característica forte do lugar, o conjunto de prédios não é apenas local de trabalho. Quando a noite chega e as portas do comércio são trancadas, bares e uma boate animam a noite de um público diversificado e alternativo. Segundo a prefeitura, entre bares e restaurantes, 20 estabelecimentos funcionam no Setor de Diversões Sul, além da casa de festas.

O pedreiro Márcio Guerra, 29 anos, e a salgadeira Cláudia Gina, 36 anos, aproveitavam a noite de sábado em um dos bares. O casal trabalha no Lago Sul, e frequenta o CONIC aos finais de semana. Um dos motivos da escolha do local é a proximidade com a Rodoviária do Plano Piloto, já que moram no entorno do Distrito Federal. “Gosto muito daqui, pois podemos sentar para conversar em um ambiente tranquilo. Já ouvi falar sobre os usuários de crack e as prostitutas, mas às vezes saímos tarde daqui, e, mesmo assim, nunca vimos nada disso”, conta Cláudia. Enquanto a a equipe do Esquina Online conversava com o casal, uma pedinte se aproximou e pediu parte do alimento que era consumido. “Essa é a parte ruim. Eles pedem demais e incomoda um pouco. Mas todo lugar tem disso”, afirma Márcio.


O auxiliar de escritório Marcos Ribeiro, 54 anos, trabalha há onze anos no CONIC. Sentado à mesa do bar, ele conta que o lugar passou por uma transformação nos últimos cinco anos. “Aqui acontecia de tudo. Era muito fácil ver jovens usando crack e a prostituição tomava conta da noite. Vivi as diferentes épocas daqui, hoje considero um lugar muito tranquilo”. O gerente de um dos estabelecimentos, que preferiu se identificar apenas como João, 35 anos, conta que os bares funcionam de segunda a sábado, e que todos os dias tem movimento. “O CONIC é mal falado, mas não tem mais os problemas de anos atrás. Está tudo bem diferente se comparado há sete anos quando comecei a trabalhar no bar”, revelou.


BALADA

A Galleria é um dos points gays mais tradicionais de Brasília / Foto: Lucas Veloso
A diversão no CONIC não acaba às 22h30, horário aproximado de fechamento dos bares. No subsolo ao lado de uma igreja, a batida da música vai até o amanhecer do dia seguinte. Na entrada, um segurança checa o documento de identificação dos frequentadores. Ao descer a escadaria, a bilheteria decorada com panos vermelhos e iluminação da mesma cor, dá as boas vindas à boate.

O Espaço Galleria funciona ali desde 1974, são 40 anos de história. Neste período, passou por repressão durante a ditadura militar e se transformou em um point gay de Brasília.  Mas o público, entre 18 e 30 anos, é variado. Assim como os estilos musicais. Segundo o produtor das festas, Kellison Daniel, 30 anos, as noites são temáticas. “Hoje, por exemplo, nosso tema é Halloween. Mas aqui nada é fixo, não há monotonia. House, pop, funk... tocamos de tudo”, conta.

O produtor das festas também
 participa das festas / Foto: Lucas Veloso

Em meio à diversidade cultural do CONIC, a proximidade da boate com uma igreja incomoda o empreendedor cultural Thiago Peres, 25 anos. “Não venho sempre aqui. Mas eu acho que todas as igrejas deveriam sair do CONIC. Aqui é lugar de diversão, e isso não combina com religião”, defende. O estudante João Marcos, 20 anos, frequenta o local há dois anos. “O CONIC está perto de tudo, está no centro. E o melhor é que aqui o público é misturado. Quando venho, costumo ir embora só às seis da manhã”, conta o estudante ao entrar na boate para mais uma noite de festa.

No espaço, que tem capacidade para 400 pessoas, o cabelereiro Antônio Costa, 34 anos, reclama. “Em Brasília falta mais opções para o público gay, a Galleria é um dos poucos lugares onde a gente pode se divertir”, opina. No final da madrugada, o apagar das luzes da boate é sinal que mais um dia estar por vir no centro comercial mais cultural da cidade.


Por Lucas Veloso - Esquina Online


Além das apresentações de DJs, as festas do Espaço Galleria têm performances de covers e drags ao longo das noites. Veja os vídeos:


Conic - Evangélicos enfrentam dificuldades e preconceitos

O Setor de Diversões Sul, mais conhecido como Conic, é um dos lugares mais ecléticos de Brasília. Quem caminha por lá, encontra uma grande diversidade de culturas. É possível encontrar bares, boates, lojas de produtos eróticos, entre outros, tudo isso junto e misturado com igrejas. Atualmente, seis igrejas evangélicas estão no Conic fazendo trabalhos de evangelização e levando mais pessoas a participarem de seus cultos. Apesar de serem igrejas diferentes, com algumas particularidades em suas doutrinas, todas trabalham com o mesmo fim e não há disputas de território entre elas. Para a Pastora Cléia, do Ministério Marca da Promessa, é uma alegria saber que outras igrejas também estão no local. “Eu fico muito feliz, porque somos um só corpo. No céu não vai ter placa de igreja. Estamos todos trabalhando em prol do Reino de Deus”, afirma ela.

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Conic - Uma igreja que acolhe os homoafetivos 
Conic - Pluralidade Religiosa 

Preconceito

 Procuradas pela equipe de reportagem do Esquina, a maior parte das igrejas não aceitaram falar sobre suas visões e ações no local. Um fiel de uma das igrejas evangélicas contou que eles precisam ter muito cuidado quando falam sobre suas missões, porque normalmente as pessoas distorcem e não entendem o real objetivo de estarem ali, e que, muitas vezes, isso acontece por preconceito.

Pastora Cléia conta que não é tão fácil abrir uma igreja lá: “Não foi só chegar de cara, ficamos um ano tentando entrar aqui. Esse prédio estava fechado há quatro anos. Duas igrejas já tinham tentado entrar e não conseguiram. Houve muita resistência, foi uma luta.” O prédio do Ministério Marca da Promessa, fica onde funcionava o antigo Cine Ritz, uma casa de filmes pornôs que foi fechada por denúncias de prostituição. “Era um lugar de destruição de lares, de bebedeira e de prostituição. Hoje é um lugar de testemunho de vida”, afirma Cléia.


Missão

A pastora Cléia faz trabalhos de evangelismo com o público do Conic /Foto: Ariane Petry


Quem passa pelo Conic facilmente encontra pastores e membros das igrejas distribuindo folhetos e abordando pessoas nos corredores. Isso acontece porque o foco maior das igrejas do centro são as ações sociais. “Nós cremos que as Igrejas têm que sair das quatro paredes. Mas não é fácil estar aqui, tem que pagar um preço, renunciar coisas. Hoje, eu poderia estar bem na minha casa, cuidando do meu bebê de três anos, mas tô aqui segurando placa”, conta Pastora Cléia, enquanto entrega folhetos. As ações sociais também envolvem outras dificuldades maiores, como o trabalho com drogados e prostitutas. A Pastora do Ministério Marca da Promessa, igreja que chegou há pouco tempo no local, falou que tirar pessoas dos seus vícios e problemas é uma missão que arde em seu coração, mas que não é uma tarefa fácil: “Não é só tirar a pessoa dali. Não é só dizer que ela está curada do seu vício. É um trabalho de libertação, de médio a longo prazo”. Clélia afirma também que é preciso ter muito amor às vidas e se doar totalmente a elas. 


            Apesar de todas as dificuldades enfrentadas pelas igrejas locais, há uma satisfação muito grande dos pastores e membros ao ver que estão ajudando a mudar a vida de muitas pessoas ali: “Se não há luta, não há vitória. Sabemos que esses projetos nasceram do coração de Deus, e quando é Deus, nós tudo podemos”, confia Pastora Cléia.



Por Ariane Petry - Esquina Online