Conic - Uma igreja que acolhe os homoafetivos

A Comunidade Athos é uma igreja recente, com visão inovadora no País

Conic - Seis estúdios fazem a festa dos tatuadores

A tatuagem encontrou no Conic sua casa no Plano Piloto

Conic - O brilho das Drag Queens

Assim que Savanna Berlusconny sobe ao palco, o público da boate se aglomera para assisti-la

Postagem em destaque

Nova plataforma!

Prezadas leitoras, prezados leitores, estamos com uma nova plataforma de conteúdo, lançada em junho de 2017. As reportagens são produtos tr...

Unir forças para vencer

Empresários lucram com negócio colaborativo em meio à crise.

Em tempos de crise, ideias inovadoras são adotadas e se tornam estratégias eficientes num cenário de escassez. Exemplo disso são os negócios colaborativos, um modelo de negócio em que a principal característica é o somatório de forças de trabalho na direção de um objetivo comum. Um exemplo mais pontual desse cenário em Brasília é um espaço colaborativo aberto no fim do mês de abril, e liderado pela estilista e empresária Lili Brasil, na 315 Norte.  Ela conta que a primeira vez que teve contato com negócio colaborativo foi em São Paulo, mas que a primeira experiência de viver coletivamente foi já na capital federal. “Eu vi que era uma ideia muito viável. Que as marcas conseguiriam ter um espaço sem que cada uma tivesse que ter uma loja”, defende. 
Lili explica também que viver coletivamente não é fácil, e que é necessário cuidado ao lidar com os interesses de todos os envolvidos. Mas que apesar disso percebia que a força das pessoas era maior que os problemas que surgiam. “A gente só tem 15 dias. Mas de todas as marcas só uma não alcançou o seu investimento”, relata Lili. No caso da marca de Lúbia Do Carmo, sócia de Lili, as vendas já alcançaram o triplo do valor do investimento. “Para a gente tem sido lucrativo. A gente não lucra com a loja em si, a gente lucra com a venda das nossas peças. A loja é autossustentável”, esclarece Lúbia.   Das vantagens que o modelo colaborativo traz, Lili elenca como principal a união de forças por um único objetivo. A estilista, que lidera pela primeira vez um negócio colaborativo em um espaço fixo, também já comercializava a marca individual em uma van, por meio de um serviço de delivery. Mas a empresária percebia que os clientes pareciam resistentes em chamar o serviço e acabar não comprando. "Na loja tem essa vantagem, os clientes ficam mais à vontade, e podem conhecer diversas marcas num único espaço".
Fazer com que as pessoas se interessassem pela proposta de negócio quando ela ainda era uma ideia foi uma dificuldade do início. "Teve gente que fez o contrato um dia antes da inauguração. Precisou ver a loja pronta para acreditar. Mas hoje a gente tem uma lista de espera".
Durante a criação do plano de negócios, as empreendedoras avaliaram o risco de abrir uma empresa em meio a uma crise,  mas enxergaram no modelo uma vantagem a mais. "Uma coisa é pegar um aluguel de cinco mil reais sozinha, outra coisa é dividir isso com quinze pessoas", explica. Além do triunfo sobre as contas internas do comércio, as sócias apostam na divulgação pelas redes sociais e na promoção de eventos abertos para atrair o público."A gente pensou também que a loja, além de um espaço de venda, fosse também um espaço de compartilhar informação. Um ponto de encontro." Criaram um happy hour regular para todas as sextas-feiras, sempre com comida e bebida e uma proposta artística, na frente da loja. "Às vezes as pessoas não compram exatamente naquele dia, mas elas sempre voltam".

Lili Brasil (frente à esquerda) e Lúbia do Carmo (frente à direita) com parte da equipe de criadores.  Foto: divulgação.

Para Luana Ponto, sócia de um outro espaço colaborativo na 310 norte desde 2014, além da diversidade de produtos, muitos deles de origem candanga,  expostos num mesmo lugar, e com preço acessível,  uma grande vantagem do modelo colaborativo é a dinâmica diferenciada do estoque. “A gente não tem essa preocupação, porque os produtos não são nossos. A gente só aluga os espaços, e dá essa estrutura de loja,  mas a preocupação com o estoque, com o que vai vender, e com os preços, é das marcas”, esclarece. A sócia conta ainda que todos os meses chegam marcas novas, e que toda semana os locadores dos espaços precisam trocar os produtos. Como lado negativo, Luana fala sobre a dificuldade de trabalhar  com muitas pessoas. “É difícil e a gente não pode abrir muitas concessões, porque se abrir pra um precisa abrir para todas as outras 120 pessoas envolvidas”.
Camila Viana, sócia proprietária de um coletivo na 404 Sul, relatou que teve contato com o modelo de negócio colaborativo pela primeira vez em São Paulo, mas que em pesquisas realizadas na internet viu que era um modelo já pulverizado no exterior. A empreendedora, que pensava em abrir uma loja comum, optou por juntar esforços com marcas que só expunham em feiras pontuais durante os fins de semana. Para ela, “o espaço funciona como um  mini-shopping, durante a semana toda e no final de semana também”.
Uma das dificuldades que Camila enfrentou foi o fato do modelo ser uma novidade para os serviços profissionais necessários à abertura da empresa. “A gente foi atrás de advogado, contador, e publicitário quando foi implementar a empresa, e ninguém conhecia esse tipo de negócio. Então eles nem sabiam ajudar a gente no princípio. A gente começou totalmente do zero”.
Camila afirma que o negócio tem sido lucrativo e superado todas as expectativas. E que o público que passa a frequentar a loja, ao conhecer o funcionamento de um espaço colaborativo, fica interessado não só em comprar, mas em expor também. “Para a gente a crise praticamente não existe, a gente pega exatamente as pessoas que estão precisando de uma renda extra, e que fecharam as portas de grandes lojas, por não ter mais condição de manter”.

No espaço colaborativo de Camila Viana cada marca expõe em um box exclusivo. Foto: divulgação.

Eunice Pinheiro, jornalista de formação e proprietária de um coletivo no shopping Liberty Mall, é também estilista e dona de uma marca de sapatos há cinco anos. Ela acreditava que o Natal do ano passado dava sinais de que teria vendas baixas. Decidiu então se reunir com amigos produtores de moda de Brasília, e abrir uma loja Pop Up (Estabelecimentos varejistas que funcionam por um prazo geralmente curto e pré-determinado) para vender melhor o trabalho dos envolvidos. “Negociei um aluguel bem razoável, conseguimos pagar dois funcionários e as contas”. A loja está aberta desde dezembro, e no plano original era para ter sido fechada em janeiro deste ano. Mas o sucesso de vendas, demonstrando a aceitação do público, permitiu a renovação do contrato do aluguel até dezembro de 2016. “O que a gente paga aqui é metade do que valeria, ou menos. A crise existe, mas as pessoas pararam de comprar o comum e passaram a comprar o diferente”.
No espaço liderado por Eunice, todos têm o mesmo destaque. E para entrar no coletivo é necessário que se tenha um trabalho autoral. Ela explica que não entra no rateio do aluguel, mas participa na divisão dos valores de impostos e despesas internas. A jornalista, que deixou um cargo de confiança no Senado após 19 anos, revela que apesar de ter optado por uma vida com orçamento mais restrito, hoje vive do que rende o empreendimento. “Claro que eu não viajo mais para o exterior como eu viajava antes, mas eu estava super infeliz como jornalista, então eu resolvi optar pela minha felicidade”, confessa.

Por dentro da caixa

A boa perspectiva parece corresponder não só às expectativas dos proprietários dos espaços coletivos como também às dos expositores. Fábio Souza é dono de uma marca chamada de camisetas com temática de futebol. Ele relata que não tinha o dinheiro para abrir uma loja, e que após pesquisar na internet e conversar com amigos, abriu a marca no Natal. E apesar da pressão em alcançar a cota de vendas para não perder espaço para os candidatos à expositores na lista de espera dos coletivos em que participa, Fábio é otimista. “Está no começo. As coisas estão começando a encaminhar. As pessoas estão começando a conhecer a nossa marca”, afirma.
Ana Paula Barros cria itens de decoração em feltro há dez anos, e também procurava uma saída para os altos custos envolvidos no aluguel e na manutenção de um ponto comercial e de uma equipe de funcionários. A empresária paulista conta que já frequentava uma conhecida loja colaborativa da Rua Augusta, e que como sempre vinha para Brasília visitar a família, acabou conhecendo a franquia localizada na Asa Sul. “Fiquei morrendo de vontade de ter uma caixinha. É uma vitrine perfeita, traz novos clientes”. 

A marca de camisetas de Fábio Souza aposta também nas vendas em eventos abertos da cidade. Foto: divulgação.


Novos Caminhos

Como uma forma primordial para a saída da crise que o Brasil vive agora, o desenvolvimento de negócios colaborativos é fundamental. Sobretudo se levarmos em consideração o contexto de escassez de crédito. Está caro para as empresas financiarem seus próprios projetos. Ao se falar de negócios colaborativos, uma empresa pode desenvolver soluções para a outra. Cada vez mais vamos entender os negócios colaborativos atuando entre si, o que vai permitir o caminho da inovação criativa. Por mais que no Brasil a Inovação não seja um conceito tão disseminado entre as empresas, falando de uma forma geral, esse caminho é essencial para a saída de uma conjuntura de crise. “O crowdfunding, por exemplo,  é uma forma de você colaborar financeiramente, ou dar ideias de projeto através das plataformas. Um modelo de negócio colaborativo em grande escala que já vem funcionando”, é o que afirma o Coordenador do projeto Indústria Criativa da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro - FIRJAN.

Confira abaixo a matéria feita para o Jornal Esquina.



Por Ricardo Cezar Rocha.


Mulheres sofrem com a exposição da intimidade

Sem punições a criminosos, vinganças de ex-namorados causam temor


     Ela se levantou atrasada para ir à escola, como de costume. Tomou um café preto e comeu um pedaço de pão dormido. Deu bom dia para o porteiro do prédio, que a olhou de forma diferente do costume. Seguiu o caminho para escola. Cochichos, dedos apontados, risos e várias pessoas olhando para o celular. Resolveu checar as mensagens que recebera na noite anterior. Os olhos se negavam a acreditar no que estavam lendo. O ex-namorado, que não aceitava o fim do relacionamento, divulgou imagens dela nua em grupos do whatsapp. No final, a garota entrou em depressão e se matou. Eis um roteiro comum nos nossos tempos tecnológicos e no vácuo de uma legislação que ainda não tem punido esse tipo de crime.
     A vítima em questão pode atender por vários nomes, como Júlia, 17 anos, que se suicidou após ser vitima de revenge porn em 2015, no Rio de Janeiro; ou Giana, 16, que passou por uma história semelhante na mesma época, também no Rio.
    Apesar de homens e mulheres produzirem e compartilharem a imagem com os companheiros, as pessoas que se identificam com o gênero feminino são as que mais sofrem – 80% dos casos são relatados por mulheres. Uma pesquisa realizada pelo site de denúncia e apoio às vítimas, Safernet, constatou dado alarmante: em 2014, aproximadamente 224 garotas sofreram desse tipo de agressão virtual. No ano passado, o número aumentou, e chegou a 322 denúncias.


     “Revenge porn” (do termo em inglês que define essa ação criminosa de vingança) é uma forma de agressão que acompanha o crescimento da tecnologia. Quanto mais rápido e fácil for viralizar um vídeo ou um conjunto de imagens, melhor para quem comete esse crime. "Nos últimos anos, a gente percebeu um aumento significativo de denúncias de meninas que tiveram fotos íntimas expostas na internet, o que nos fez perceber que esse tema é muito importante e sensível, porque o sofrimento é muito grande. Há dois anos tivemos um caso amplamente noticiado, de duas meninas que não suportaram a pressão e cometeram suicídio", lembrou a psicóloga Juliana Cunha, coordenadora do canal de ajuda da Safernet, referindo-se a Júlia e Giana.

     A pornografia de vingança, como a maioria dos fenômenos tecnológicos ou comportamentais, não pode ser explicada por uma ou duas razões definitivas. “É preciso tomar cuidado com a pergunta ‘Por que as pessoas fazem isso? ’”, diz Luli Radfahrer, professor de comunicação digital da USP (Universidade de São Paulo).

    Apesar da imprecisão, alguns fatores abaixo podem ajudar a entender como fotos ou vídeos íntimos são tirados e acabam indo parar nas mãos de uma rede de desconhecidos. Mostram também como a vítima se torna culpada por um crime cometido contra ela mesma.

     Os jovens de hoje são mais tecnológicos e mais acostumados com a exposição do corpo. “Para pessoas mais velhas, enviar um nude (foto própria de nudez) é impensável, mas para a nova geração é normal, porque ela já nasceu no meio de tudo isso”, afirma Radfahrer. Segundo estudo do Datafolha, estudo feito em junho de 2015 com 2.437 brasileiros a partir de 12 anos, 24% dos adolescentes de 12 a 15 anos recebeu seu primeiro smartphone antes de completar dez anos de idade. Já os adultos maiores de 25 anos só adquiriram esse tipo de aparelho com mais de 30 anos (47%).

O que leva alguém a divulgar a intimidade alheia?

     “Você foi passado para trás em uma sociedade competitiva”. Essa ideia pode fazer com que alguém que foi “abandonado” ou traído exponha o outro. “Negociar a intimidade de alguém é como ter um pequeno poder. Normalmente pessoas que acuam o outro, que querem extorquir o outro, têm sérios problemas de autoestima ou não sabem lidar com perdas”, afirma o psicólogo e terapeuta sexual Paulo Tessarioli. “A partir do momento em que algo envolve sexo, pode tomar uma proporção inimaginável”, afirma Carolina Parreiras, socióloga e pesquisadora na área de pornografia na internet.

      Em 2014, 81% das vítimas atendidas pela ONG Safernet era do sexo feminino – o restante, em sua maioria, era de homens homossexuais, de acordo com a coordenadora psicossocial Juliana Cunha.

      Isso acontece por duas principais razões, segundo a jornalista Juliana de Faria, criadora do blog feminista Think Olga: “Primeiro, porque o corpo da mulher é hipersexualizado, não é visto só como um corpo, e sim como uma ferramenta sexual. Segundo, porque a mulher sempre foi entendida como um ser que deve ficar no ambiente privado. A partir do momento em que ela cai na internet, precisa ser punida ou se sentir envergonhada. É uma forma de colocá-la no lugar dela”, diz a jornalista. “Não é algo que as pessoas pensem conscientemente, claro, mas já está dentro da gente, porque vivemos em uma sociedade patriarcal.”

     Muito ligado ao machismo, o julgamento é o ponto que tem mais impacto na vida das pessoas expostas – chega até a levar algumas delas ao suicídio. É também o que transforma as próprias vítimas em responsáveis pelo crime.

    Uma reação comum em casos de pornografia de vingança, tanto entre homens quanto entre mulheres, é: “Mas também, por que é que ela foi tirar fotos pelada? Era óbvio que isso ia acontecer”. “Sempre que vaza alguma coisa que se choca com os valores que a sociedade defende, ela se manifesta para mostrar que é contra aquilo. É como se cada um fosse um representante dessa moral e desses bons costumes”, explica o psicólogo e terapeuta sexual Paulo Tessarioli. Para o professor de comunicação digital Luli Radfahrer, julgar a vítima é um segundo crime, tão grave quanto o de espalhar as imagens.

       As vítimas do revenge porn estão espalhadas em todo o mundo, e muitos danos são irreparáveis, quando esses acontecimentos levam as vítimas ao suicídio. Porém, a outra parcela que resiste, sempre precisa mudar de escola, faculdade, trabalho, etc., mostrando cada vez mais que um tabu precisa ser quebrado acerca da sexualidade feminina. O que não falta é alguém para contar sua história, falar como se sentiu em relação a tudo isso: à exposição, aos xingamentos, à repressão familiar. Diferentemente de outros casos, a pernambucana Rhuanna Nurryelly fez um ensaio sensual após ter sido exposta, e mudou a opinião de todos sobre o caso.



        L., 17 anos, não teve o mesmo apoio encontrado por Rhuanna. Conheça a história:






por Marya Cecília Castro e Pedro Henrique Castro

Pedagogos ensinam valores que fogem da educação tradicional



Educar é sinônimo de sorrir

Foto: Íris Cruz



Assim como  amor, a sabedoria está no berço de criação. É do colo familiar que as crianças colhem o fruto do conhecimento e se preparam para viver e conviver em comunidade. Diferente do que o modelo de ensino tradicional mostra para os estudantes, a inteligência não está em uma pesquisa de doutorado ou em cargos profissionais elitizados, ela está presente na essência das pessoas e pode se manifestar em diferentes qualidades.


Foi a partir de pensamentos como esse, que estudiosos passaram a defender uma educação que foge do padrão prova, nota e boletim. No olhar do educador português José Pacheco, referência mundial na área da educação, o ato de imitar é a base aprendizagem, o que explica as crianças reproduzirem o ambiente que as cerca.


“A gente aprende o outro, por isso as pessoas que convivem com as crianças devem manifestar valores positivos, sobretudo o amor”

Já o filósofo inglês Robert Fulfhum, defende as experiências vividas no parquinho de areia como base da psicologia de cada pessoa. No livro Tudo que deveria aprender na vida está no jardim de infância, ele faz análises do mundo infantil e as compara com atos de gente grande.


“Pense na sementinha de feijão, plantada no copo de plástico: as raízes vão para baixo e para dentro, e a planta cresce para cima – ninguém sabe como ou por quê, mas a verdade é que nós também somos assim”, cita na livro.


Educação exemplar
Criador da Escola da Ponte, que fica no distrito do Porto, em Portugal, José Pacheco lutou para provar suas ideologias. “Há 40 anos, a Escola da Ponte era uma escola que ninguém queria, que ninguém desejava ir para lá”. Porém, hoje, o colégio que idealizou é visto como um marco pedagógico e exemplo educacional para o século 21. A instituição pertence ao ensino público português e é reconhecida mundialmente pela proposta inovadora, que visa, acima de tudo, à felicidade das crianças.

No início da formação, Pacheco também trabalhava com o método tradicional. Mas, depois de muitas reflexões e estudo, chegou à conclusão de que os pequenos não absorviam o conteúdo do jeito que os professores queriam, porque as aulas tradicionais não seguem a essência da aprendizagem, a naturalidade.


"Uma escola com propostas de século 19 não pode funcionar no século 21" , José Pacheco
                                                                                       Foto: Creative Commons

“A cultura diz que o professor precisa ser contente e ético. Ele pode ser feliz por gostar do trabalho, mas se a aula dele não ensina a todos, precisa reconhecer que não pode continuar assim”

Agora, a reconhecida escola de Pacheco não tem paredes nem portas como divisores de ambiente, o que divide o aprendizado é a área de interesse de cada um e o grande lema é felicidade.  Já a gestão, é feita pela comunidade local, com assembleia de estudantes, associação de pais e outros grupos, que guiam os programas culturais de funcionamento.

“Somos uma organização social de aprendizagem, que é uma comunidade”

Hoje, Pacheco mora em Brasília e diz que no Brasil existem escolas que se assemelham à essência da instituição que idealizou. Ele, que viajou o mundo e  estuda as escolas brasileiras, diz que o país tem os melhores projetos educacionais.

“Eu não quero que as escolas brasileiras sejam como a Escola da Ponte, porque ela não é um modelo, é uma inspiração”

                                                                             A arte é a raiz da educação
                                                                                       Foto: Íris Cruz

Segundo ele, é preciso que as escolas se configurem na prática e na posição dos professores, para acompanhar o crescimento individual de cada aluno e ser um exemplo de autonomia e solidariedade.

“Quero professores atentos e responsáveis, que correspondam à cultura local e às necessidades sociais”
Como explica Pacheco, a escola pode atender as necessidades individuais e o crescimento pessoal dos estudantes se trabalhar com equipe de projetos, “O professor em sala sozinho é um escândalo; um professor sozinho não pode responder cada um do alunos, porque ele é um indivíduo e transmite o que ele é”

Na visão do educador, é preciso fugir de um modelo que transmite infelicidade, em que professores estão doentes e alunos não aprendem. “Uma escola com propostas do século 19 não pode funcionar no século 21”. A organização de se ter uma única pessoa em sala, com alunos, mesas e lousas, é um modelo de educação ultrapassado e inaceitável para atualidade.
O aprendizado pode se dar até em uma floresta, o importante é que siga a naturalidade. “Podemos aprender em qualquer lugar, desde que haja a interação de um tutor que acompanhe o aprendiz e a produção do conhecimento”. Segundo Pacheco, uma loucura se apoderou do poder governamental e das secretarias de educação, que não enxergam os valores de humanização, complementariedade e colaboração.

“Numa aula nada se aprende, numa prova, nada se prova; O Brasil tem tudo que precisa para construir uma nova rede de aprendizagem, mas a responsabilidade está nas mãos de quem gera”

Pedagogia Waldorf
Baseada nos princípios da antropofasia, a pedagogia Waldorf Livre trabalha a união entre o crescimento físico, espiritual, intelectual e artístico das crianças. Exemplo de educação que foge dos padrões tradicionais, a pedagogia segue a ideologia de Rudolf Steiner. Em 1919, ele fundou a primeira escola que responde aos conceitos da ciência espiritual.

Hoje, por mais que corresponda aos ideais de Steiner, concretizados há quase 100 anos, a pedagogia ainda é vista como alternativa aos métodos tradicionais. O que, como explica José Pacheco, mostra mais uma vez como o ensino adotado pelas escolas tradicionais é retrógrado e inadequado para a realidade do século 21.
Por meio de atividades lúdicas, que utilizam a relação corpo e alma para transmitir o conhecimento, os professores apresentam o conteúdo de um jeito alternativo, expondo a realidade e fazendo com que os alunos cheguem às próprias conclusões.

Em Brasília, as escolas Moara e Jardim Pequizeiro adotam o método da pedagogia Waldorf
     Foto: Escola Moara/Divulgação

“Quando me profissionalizei na área da educação, vi como está defasada e não contempla o que acredito em relação ao ser humano”, conta o educador Paulo Nascimento, hoje especializado na pedagogia Waldorf.

Segundo o professor, a vontade em trabalhar com uma visão do conhecimento integral, que abrange aspectos físicos, cognitivos, sociais e espirituais o fez se interessar pelos estudos de Rudolf Steiner e dar aulas que valorizam o emocional.

“Diferentemente do ensino tradicional, que é materialista e só visa o vestibular, a pedagogia Waldorf traz a integração do ser humano e por isso me encantei”

                                                A educação deve ser vivenciada do jeito mais natural possível
                                                                                        Foto: Íris Cruz

Como explica Paulo, se a criança for obrigada a aprender algo que ela não esteja preparada para entender, isso vai tirar forças dela, e a energia que deveria ser utilizada para o desenvolvimento físico no período da alfabetização, por exemplo, vai passar a ser desviada apenas para o intelecto, prejudicando-a por completo.

“Valorizar o tempo dela é preservar a saúde e o gosto pelo aprendizado, por isso o ensino na pedagogia Waldorf é uma respiração”
Já que nasceu na Alemanha, mas está presente em mais de 60 países, a pedagogia se adaptou a cultura de cada lugar. Segundo Nascimento, os educadores precisam ser abertos e falar fielmente sobre os fenômenos na natureza.
No olhar do professor, a cada aluno que chega de um ensino tradicional, em pouco tempo na metodologia dita alternativa, percebe-se uma vivacidade maior e um desenvolvimento pessoal muito grande.

“Recebo muitas crianças durante o percurso e percebo uma mudança no termo de vivacidade, por meio de práticas corporais e observação da natureza. As práticas artísticas permitem esse aflorar maior de emoções, então a criança fica mais solta, espontânea e viva”

Palavras dos pais

Mãe de Samuel, de 14 anos, e Nicolas, de 10 anos, Luciana Hora Acioli tirou os filhos do ensino convencional por acreditar que a educação não deve seguir padrões únicos e precisa se adaptar ao íntimo de cada criança. Hoje, Samuel e Nicolas estudam com a metodologia Waldorf e para a mãe essa escolha faz parte da receita da felicidade.


“Meu filho mais novo tem síndrome de Asperger e não se adaptou ao ensino tradicional; mas, na verdade, foi o ensino tradicional que não se adaptou a ele”


Depois de enfrentar grandes barreiras em escolas tradicionais, descobrir um lugar que acolha o filho e respeite seu ritmo de aprendizado fez toda a diferença no desenvolvimento de Nicolas.

“Nas primeiras semanas de aula na nova escola, ele olhou pra mim e disse: mamãe, eu me sinto confortável. Essa foi minha maior felicidade”
Segundo Luciana, o clima descontraído na apresentação dos conteúdos desbloqueou o problema de expressão do filho que, assim, desenvolveu outras habilidades, principalmente na área das artes.
Pintura de crianças da escola Moara
 Foto: Escola Moara/ Divulgação

“Na infância a gente descobre o mundo e a maneira como a gente o descobre define tudo lá na frente, na vida adulta”

Com olhar maternal, ela fala que se os pais inserirem os filhos em um sistema de condicionamento, as crianças não vão ser estimuladas a ter um espírito pesquisador e curioso.

“Tudo o que a gente aprende no jardim de infância influencia no nosso aprendizado lá na frente”
André Barcelar é pai de Alice, de 10 anos, e Miguel, de 8 anos.Ele optou em educar os filhos longe das escolas tradicionais por acreditar que o ensino convencional causa traumas nos pequenos.

“Queria uma pedagogia que respeitasse o brincar e estimulasse a autonomia”, conta. A escolha de Barcelar também foi a pedagogia de Rudolf Steiner, que embora não seja moderna é uma alternativa ao ensino repressor.

“Pra mim, a educação não é só professor e aluno, é tudo que está em volta da gente. Essas escolas tradicionais não têm compromisso com a educação não, educar é muito diferente do que assistir aulas”

Casa das palavras

No programa Casa das palavras, da TV Câmara, os jornalistas Roberto Seabra e Paulo José Cunha falam sobre literatura. Entre tantos escritores e leitores de referência nacional e internacional entrevistados, eles também conversaram com José Pacheco, que ilustrou o futuro e a realidade das escolas brasileiras. Confira a reportagem:




Documentário

Lançado em 2014, o documentário Sinto que já sei expõe práticas educacionais inovadoras adotadas por escolas brasileiras. Nele, o  cineasta Antônio Lovato mostra que as instituições de ensino devem ser lugares lúdicos, para estimular o sorriso.




Veja aqui uma seleção de escolas ao redor do mundo que se destacam na arte de inovar.

Por Íris Cruz